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Perguntas & Respostas (FAQ) sobre Life Sciences (Ciências da Vida)

- Qual a importância da validação dos sistemas computadores - CSV?

 

A validação de sistema computadorizados que tem impacto na saúde do paciente, qualidade do produto e integridade dos dados basicamente deve provar que o sistema faz aquilo que deveria fazer. O ciclo de vida do GAMP (Good Automated Manufactoring Practice – guia para validação de sistemas - tem dois objetivos:

a.) documentação de projeto: os requisitos de usuário somado aos documentos de especificação documentam o projeto do sistema e seu desenvolvimento. O lado esquerdo do ciclo de vida em ‘V’ (veja figura abaixo)  da validação trás muitos benefícios, como por exemplo evitar que o usuário fique totalmente dependente do fornecedor e também evita que dentro da estrutura do próprio usuário que, quando perde algum profissional da equipe, que a informação sobre aquele determinado sistema também não se perca.

b.) desafio do sistema: o lado direito do ciclo de vida em ‘V’ (veja figura abaixo) é composto pelo protocolo de testes e seu devido uso para desafiar o sistema. Basicamente, o conteúdo destes testes deve contemplar as funções que o sistema executa, primordialmente as funções críticas, mas também deve contemplar o que o sistema não pode fazer, exemplo... o agitador de um determinado reator não pode funcionar quando estiver adicionando matéria-prima, ou seja, um teste para cobrir essa função que não deve acontecer deve ser contemplado.

- Quais os principais cuidados que os usuários finais devem ter no projeto/contratação de um sistema computadorizado que vai gerenciar a produção?

 

O maior cuidado que  usuário deve ter na contratação é o atendimento ao FDA 21CFRPart11, norma que traz regras para uso de registro eletrônico e assinatura eletrônica. Um sistema é validável se o mesmo atende tal norma. Basicamente, não existe nenhum órgão regulamentador ou agência que inspeciona se o fornecedor realmente atende todos os requisitos da norma. A conferência e conclusão deste trabalho ocorre durante o processo de validação. Daí, o sistema já está comprado, configurado e instalado. Tarde demais...

 

Sugere-se então que o usuário cheque se o sistema é realmente validável antes do fechamento do contrato.

Duas dicas abaixo podem agilizar este processo, que são os pontos mais difíceis de atendimento à norma. Se o fornecedor for capaz de demonstrar com sucesso os pontos mencionados à seguir, pode ser um bom sinal:

Os requisitos do part11 que mais exigem esforços do fornecedor para seu atendimento são:

a.) audit trail: registro das ações do usuário no sistema – deve conter: quem acessou o sistema, de onde (IP por exemplo), o que fez, quando fez e porque fez, caso utilize o campo de nota (normalmente disponível) para tal justificativa. Normalmente, existe uma tela de ‘logbook’ que contém esse tipo de informação que às vezes possui até filtros por tipos de eventos para facilitar a busca dos eventos separados por natureza;

b.) inviolabilidade dos arquivos: part11 exige que os arquivos de dados históricos do processo (ex. temperatura, umidade, pressão, etc...) somado aos eventos do audit trail sejam arquivos não editáveis.

Existem outros requisitos que o part11 contemplam, mas os dois deles mais vulneráveis em termos de atendimento estão expostos acima. E agora, como saberemos se o potencial fornecedor é capaz de atendê-los?

Siga as dicas abaixo, economizando tempo, indo direto ao ponto:

1.) Para checagem do audit trail: peça ao fornecedor, durante um processo de demonstração que faça alguma mudança de parametrização do sistema, por exemplo, mudança no valor de um setpoint de alarme do sensor tag XYZ. Anote os parâmetros antigos e novos e o respectivo tag do sensor. Após salva a mudança, peça ao fornecedor que lhe mostre a lista dos eventos. Verifique se você encontra quem fez a ação, quando foi, o que foi feito exatamente sem que ele tenha justificado. Verifique se os dados que essa tela do sistema lhe traz condiz com a realidade da mudança efetuada anteriormente;

2.) Para checar a inviolabilidade dos arquivos, peça ao fornecedor que lhe mostre um arquivo eletrônico típico que o sistema dele gera. Anote o nome deste arquivo, data e hora que ele foi gerado. Abra-o usando o bloco de notas. Se o arquivo não foi editável (que é o que esperamos), ele deve mostrar algum arquivo como exemplificado abaixo:

 

Se você abrir uma tela onde as informações não estão organizadas da maneira convencional, é um bom sinal, ou seja, o usuário final não pode realmente saber identificar onde está alocado no arquivo a informação que potencialmente poderia ser violada. O próximo passo, seria você selecionar parte do arquivo e deletá-lo, por exemplo, para simular se o arquivo do fornecedor abre na ferramenta convencional dele (que deixa as informações organizadas para que possamos interpretá-la). A resposta deveria ser: ‘arquivo corrompido’.

 

 

- Como tem sido a evolução da aceitação dos usuários a necessidade de validação?

 

Alguns poucos anos atrás, as indústrias que validavam sistemas eram as multinacionais e as que exportavam para Europa e/ou Estados Unidos, ou seja, exigência regulatória ou da matriz. Atualmente, o mercado regulado sabe que mais dia, menos dia, as exigências para comercializar o produto no mercado brasileiro também aumentarão. Neste caso, percebemos a preocupação da indústria em adquirir pelo menos uma solução validável, para que ela não perca o investimento e tenha que trocar o sistema para que seja validado.

 

- Comente as principais tendências e o que se vislumbra para o futuro nesse campo?

 

Penso que no futuro muito próximo, todo as indústrias do mercado regulado (Life Sciences) validarão seus sistemas de chão de fábrica. Essa abordagem permite que a empresa tenha um controle e conhecimento do processo e produto de maneira mais profunda, contribuindo para a melhoria contínua da qualidade do medicamento. Ajuda habilitar a indústria à exportar seu produto para qualquer lugar do mundo.

 

- Finalmente, comente sobre a 21 CFR Part 11 sobre assinaturas e registro eletrônicos: qual a definição básica dessa ação? quando foi implementada e o que levou essa necessidade de termos assinaturas eletrônicas? qual a relação entre a parte 11 e a validação do sistema?

 

21CFRPart11 foi criada pela FDA para fomentar o uso da tecnologia no mercado regulado, que comparado com outros tipos de processo, estavam se desatualizando. A norma foi criada em 1997 e seu conteúdo dá base para o que o fornecedor implemente um sistema e o usuário implemente políticas internas de privilégios de acesso e senhas de forma que os eventos do sistema sejam incontestáveis.

O atendimento à norma é uma ferramenta fabulosa para aumentar a velocidade na investigação de discrepâncias, uma vez que o sistemas possuem recursos de disponibilização de informações de eventos e dados de processo que podem dar o caminho para a solução da discrepância.

 

As funções de software que atendem os requisitos do part11 são intrínsecos ao sistema, ou seja, não se trata de documentos. Tratam-se de funções de software e hardware que juntos, são capazes de guardar todos os eventos de operação e processo. Quando se pensa em validação de sistemas, já nos lembramos de documentos, ou seja, devemos documentar e desafiar o  sistema de forma que deixemos provas documentais que o sistemas está cumprindo com suas funções definidas pelo usuário. Como o part11 é uma norma bastante consistente, tão madura quanto o guia do GAMP e pelo fato do guia referenciar o atendimento ao part11, acabou-se tendo a regra de atendimento ao part11 para que o sistema seja validável. Essa estratégia evita que o usuário adquira um sistema, gaste esforços de recursos humanos e financeiros para implementá-lo e validá-lo com o risco de chegar ao final e não conseguir atribuir ao sistema o status de ‘validado’. Já imaginou?

 

Outro ponto importante para o atendimento ao part11 é não olhar somente para os softwares que compõem a solução. Temos que olhar para todos os componentes do sistema onde os usuários terão acesso de comunicação com o  sistema, exemplo, interfaces homem-máquina (IHMs), onde o usuário o utiliza o tempo todo para definir a receita cadastrada, mudar setpoint de velocidade na agitação do reator, por exemplo, que impactam diretamente na qualidade do produto final. Se esse componente não atende os requisitos, não tem audit trail, temos o que chamamos na linguagem de validação de ‘gap’, ou seja, um fenda, uma falha no sistema onde o que os usuários fizerem no processo, passa despercebido e o sistema não registra. Desta forma, você pode ter um arquitetura que se utilize de um supervisório validável (somente ele) , mas o sistema não é validável.

Veja ilustração abaixo:

 

 

 

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